Para reverberar as vozes, perspectivas e criatividades, forças e esperanças culturais femininas, a 24ª edição do Festival Recife do Teatro Nacional abrirá, entre os próximos dias 20 e 30 de novembro, palcos e cortinas da capital pernambucana para grandes mulheres de todos os tempos das artes cênicas pernambucanas e brasileiras, que há muito protagonizam os mais diversos movimentos de produção e insurreição cultural e teatral, na elaboração delicada e potente de lutas e lutos sociais.
Em onze dias de atividades, realizadas e oferecidas pela Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura Cidade do Recife, serão apresentados 24 espetáculos, 16 deles inéditos na capital pernambucana, entre grandes produções locais e eloquentes montagens nacionais. Serão, ao todo, 37 sessões, que convidarão o Recife inteiro a consumir, aplaudir e celebrar o teatro feito no Brasil. A programação é toda gratuita, com distribuição de ingressos na bilheteria dos teatros, uma hora antes de cada espetáculo, mediante a entrega de um quilo de alimento não perecível. Haverá ainda debates, performances e oficinas gratuitas.
Entre os destaques da programação desta edição, estão os espetáculos nacionais e inéditos na cidade “Lady Tempestade” (RJ), com Andréa Beltrão, que abre o festival, “Tudo que Eu Queria te Dizer” (RJ), com Ana Beatriz Nogueira, “Mary Stuart” (SP), com Virginia Cavendish, “116 Gramas: Peça para Emagrecer” (SP), além de “Restinga de Canudos” (SP) e “Corteja Paulo Freire” (SP), ambas da Cia do Tijolo, “Zona Lésbica” (RJ), “Das que Ousaram Desobedecer” (CE), “A Menina dos Olhos Dágua” (RS), “Tem Bastante Espaço Aqui” (RJ) e “A Mulher Bala” (SP), além de “Ella” (AM), que restabelece à região Norte lugar de fala na grade do Festival.
Até entre as produções locais, há montagens jamais vistas pela cidade, como o infantil “Helô em Busca do Baobá Sagrado”, além de “Não se Conta o Tempo da Paixão” e “Sobre os Ombros de Bárbara”, das homenageadas Auriceia Fraga e Augusta Ferraz, ícones do teatro pernambucano. O único espetáculo internacional desta 24ª edição tem um pé na França e outro no Recife. O espetáculo “On Veut / A Gente Quer” apresentará roteiro francês interpretado por elenco recifense.
A programação tomará conta de teatros municipais, parques e espaços públicos da cidade. Além de subir aos celebrados palcos do Santa Isabel, Parque, Apolo, Hermilo Borba Filho e ainda do Marco Camarotti, do Luiz Mendonça, do Espaço Cênicas e da Casa de Alzira, o festival hasteará a bandeira de seu tema, “Vozes Femininas – Histórias que ressoam”, na Rua da Aurora e nos parques da Macaxeira e da Tamarineira.
Homenageadas – As homenageadas desta edição, que celebra as criadoras e criativas do teatro brasileiro, entre dramaturgas, atrizes, diretoras e pesquisadoras, que vocalizam novas perspectivas cênicas, mudando o protagonismo das narrativas artísticas e históricas, são Auriceia Fraga, do Vivencial Diversiones, e Augusta Ferraz: duas grandes atrizes, há mais de 40 anos em cena na cidade, cujas trajetórias de vida, em cima e embaixo dos palcos, contam a história do teatro pernambucano.
“Recebo com alegria e gratidão”, comentou Augusta, sobre o tributo rendido a ela. “Estou muito feliz e grata por essa homenagem, que muito me honra. Especialmente por se tratar de um evento com a importância que o Festival Recife do Teatro Nacional tem para a cidade e para sua produção teatral e cultural. É um reconhecimento de um trabalho que venho realizando, com todo amor, desde 1976. Considero também um incentivo para aquelas pessoas que desejam abraçar essa profissão”, celebrou Auriceia.
A atriz apresentará no Festival a abertura de processo de “Não se Conta o Tempo da Paixão”, em que narra sua longa e profícua relação com o teatro, na sexta-feira (21), no Hermilo Borba Filho. Augusta convidará as plateias do festival a um mergulho na vida de Bárbara Alencar, heroína da Revolução Pernambucana, considerada a primeira presa política do Brasil, no espetáculo “Sobre os Ombros de Bárbara”, apresentado no Teatro de Santa Isabel, no sábado (29) e no domingo (30).
Destaques – O festival já começa avisando a que veio. Nos dias 20, 21 e 22, o Teatro de Santa Isabel recebe a celebrada montagem carioca, inédita na capital pernambucana, “Lady Tempestade”, com Andréa Beltrão, que conta a história da advogada pernambucana Mércia Albuquerque, que enfrentou a repressão da ditadura militar, movida por um senso radical de justiça e defesa da vida.
Também inédito na cidade, “Tudo que Eu Queria te Dizer” é um solo de Ana Beatriz Nogueira, inspirado no best-seller de Martha Medeiros, em que a atriz se desdobra na pele de cinco mulheres completamente distintas para depor sobre amor, rejeição, saudade, ética e desejo. No Teatro do Parque, nos dias 22 e 23.
Ainda nos dias 22 e 23, a paulista Cia do Tijolo apresenta pela primeira vez no Recife as montagens “Corteja Paulo Freire”, uma celebração poética, musical e volante, que flexiona o conceito de cortejo no feminino, para falar sobre coletividade, respeito e caminhada; e “Restinga de Canudos”, que mergulha no imaginário submerso de Canudos, para recriar suas gentes e lutas no tempo presente. No Parque Dona Lindu e no Teatro Luiz Mendonça, respectivamente.
“116 Gramas: Peça para Emagrecer” e “Ella” também virão ao Recife pela primeira vez, com sessões no Apolo, nos dias 22 e 23, e no vizinho Hermilo, no dia 26, respectivamente. A primeira mergulha na experiência de um corpo gordo em busca do emagrecimento e a segunda é um solo de palhaçaria, que propõe a discussão sobre a violência de gênero, em especial a violência simbólica. “Ella” marca a volta da produção cênica do Norte do país aos palcos do festival recifense.
Outro destaque da programação é a montagem “On Veut / A Gente Quer”, que será apresentado no Bairro do Recife, nos dias 22 e 23, pela companhia francesa Ktha, com elenco selecionado e ensaiado no Recife.
Entre as estreias pernambucanas, destaca-se também a inédita “Helô em Busca do Baobá Sagrado”, que será apresentada no Teatro Hermilo, nos mesmos dias 22 e 23, narrando a história de uma menina a quem é delegada a missão de encontrar o fruto sagrado do Baobá e curar seu povo da doença da tristeza.
Nos dias 28 e 29, o espetáculo paulista “Mary Stuart”, com Virgínia Cavendish e grande elenco, fará suas primeiras apresentações no Recife, no Teatro do Parque. Lançando um olhar contemporâneo sobre conflitos reais, a peça conta as últimas 24 horas de vida de Mary Stuart, numa imbricada trama sobre conspiração, traição e jogos pelo poder, muito semelhante aos tempos atuais.
Outra montagem que desembarcará na cidade pela primeira vez é “Das que Ousaram Desobedecer”, do Ceará, que lembrará, no Teatro Hermilo, no dia 29, a luta de mulheres cearenses contra a ditadura nos anos 1960 e 1979.
Ainda no dia 29, serão apresentadas, às 16h, três montagens infantis: o Parque da Tamarineira recebe “A Mulher Bala”, da palhaça paulista Funúncia, que tenta se tornar uma bala humana, usando um canhão confeccionado por ela mesma; o Apolo apresentará a montagem carioca “Tem Bastante Espaço Aqui”, que reflete sobre família, convivência e afeto; e o espetáculo do Rio Grande do Sul “A Menina dos Olhos D’Água” sobe ao palco do Teatro Marco Camarotti, misturando teatro de formas animadas com teatro documentário para crianças, para falar sobre exílio e pertencimento, perda e superação.
No dia 30, entre as derradeiras sessões desta 24ª edição do festival, será apresentada a montagem carioca “Zona Lésbica”, enfrentando estereótipos de gênero, no palco do Teatro Apolo, para reivindicar o direito ao amor e ao desejo para vários corpos. “A Mulher Bala” e “A Menina dos Olhos D’Água” terão novas sessões, no Parque da Macaxeira e no mesmo Marco Camarotti, respectivamente.
OFFRec – Além de promover o encontro entre as plateias, comoções e aplausos recifenses com temas e montagens contemporâneas, o festival irá confirmar sua vocação pedagógica, promovendo a discussão cênica e a aproximação entre pensadores e fazedores de teatro da cidade e de fora dela. Dedicada a iniciantes e experimentados nos ofícios cênicos, a mostra OFFRec contará com debates, leituras, espetáculos e intervenções performáticas, para fomentar a formação de mão de obra, a fruição e a fricção entre a rua e os bastidores cênicos recifenses.
Para cumprir sua missão, o OFFRec apresentará nos palcos do festival contundentes e importantes montagens locais, que precisam ser vistas pela cidade, como: “Mi Madre”, espetáculo solo de autobiográfico de dança criado por Jhanaina Gomes, para honrar sua ancestralidade (no Hermilo, dia 24); “HBLynda em Trânsito”, que trata das vivências de uma pessoa gorda, preta, candomblecista e não binária (no Hermilo, dia 25); “Ensaio do Agora”, que fala sobre memória, narrando as histórias de nove mulheres (no Apolo, dia 27); e “Avós”, celebração da atriz Olga Ferrario à sua ancestralidade e às histórias das mulheres que ela continua (no Hermilo, dia 27).
Serão apresentados ainda “Àwọn Irúgbin”, espetáculo afro-indígena, que confirma o protagonismo social de jovens negros e indígenas (no Hermilo, dia 28); além da intervenção performática “Silêncio”, com Célia Regina (na Casa de Alzira, dia 29); e “Shá da Meia Noite”, com a primeira dama trans do teatro pernambucano, Sharlene Esse, celebrando os 40 anos de trajetória artística do revolucionário grupo teatral Vivencial Diversiones (no mesmo dia 29, na mesma Casa de Alzira).
Oficinas – A etapa formativa do 24º Festival Recife do Teatro Nacional contará com quatro oficinas, todas gratuitas, oferecidas entre os dias 20 e 27 de novembro. Entre os temas estão o teatro, a dança e o sagrado feminino, o corpo e a escrita de si, a experimentação e a criação cênica de solos teatrais, além de dramaturgias femininas. As inscrições podem ser feitas pelo link disponível na bio do perfil @culturadorecife, no Instagram.







