O Recife que foi sempre cantado em verso e prosa. É a cidade dos poetas, das pontes, das águas e das revoluções culturais libertárias. É o Recife do Capibaribe, dos casarões históricos e dos cais que não deixam o recifense esquecer sua importância econômica e cultural para Pernambuco. Mas é também, infelizmente, o Recife dos desencantos.
Entre seus muitos cartões-postais e marcos históricos está o Cais José Mariano, situado na região central da cidade. Assim como o Cais do Porto, o Cais da Aurora, o Cais da Alfândega, o Cais do Apolo e tantos outros, ele representa a memória viva de uma cidade que se desenvolveu a partir da atividade portuária e do protagonismo de seu rio.
O Cais José Mariano inicia-se praticamente em frente ao IMIP e segue em direção à Rua da Aurora, passando pela histórica Ponte Seis de Março — popularmente conhecida como Ponte Velha — referência direta à Revolução Pernambucana de 1817, a “Data Magna”, quando Pernambuco tornou-se, por 75 dias, uma república independente da Coroa Portuguesa. A história pulsa naquele espaço. Esse foi o único movimento separatista a lograr êxito na fase colonial. Ali se juntam passado e presente.
Pode-se dizer que o cais marca a divisa entre o bairro da Boa Vista, ainda hoje com comércio forte e tradicional, e o bairro dos Coelhos, que preserva características mais periféricas. Do antigo Palácio de Nassau, segundo relatos da época, avistava-se dali uma “boa vista” das terras continentais. Na mesma região existiu o primeiro cemitério judeu das Américas. Mais tarde, funcionaram curtumes, e foi erguido o Hospital Pedro II, no então sitio dos coelhos. Novamente juntam-se nesse cais, passado e presente em poucos metros de chão.
Mas não é sobre história do Recife, é sobre como tudo isso se encontra hoje. O romantismo histórico ficou no passado e dura realidade se impôs.
O Cais José Mariano abriga atualmente importantes estabelecimentos comerciais — madeireiras, marcenarias, casas de ferragens — e funciona como via estratégica de acesso a diversos pontos da cidade. No entanto, em dias de fortes chuvas, o local se transforma em um cenário de caos previsível.
Bastam precipitações mais intensas para que o cais fique literalmente submerso. O trecho entre o IMIP e a Ponte Velha torna-se intransitável. Pedestres não conseguem circular. Veículos ficam impedidos de passar. O comércio tem seus espaços invadidas pela água, acumulando prejuízos recorrentes. Moradores ficam ilhados, impossibilitados de sair ou retornar às suas casas. Mercadorias são danificadas. O maior patrimônio do comercio, seu cliente, desaparece. E até mesmo quem necessita de atendimento médico encontra dificuldades, pois o próprio hospital acaba isolado.
Não se trata de um episódio isolado ou imprevisível. Trata-se de um problema recorrente, conhecido e que se repete ano após ano.
O Recife não pode naturalizar essa situação. Não é razoável que um espaço público de tamanha relevância histórica, econômica e social permaneça à mercê das águas sempre que chove. Não é aceitável que trabalhadores acumulem prejuízos sucessivos enquanto aguardam soluções estruturais que nunca chegam.
Cuidar do Cais José Mariano não é apenas uma questão de infraestrutura urbana; é um compromisso com a memória da cidade, com sua economia local e, sobretudo, com as pessoas que ali vivem e trabalham.
O Cais José Mariano pede socorro. E a cidade não pode continuar fingindo que não escuta.
Fonte de consulta: “O Recife e seus bairros” Carlos Bezerra Cavalcanti.
Texto – Jorge Barbosa
